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A voz feminina - Jesus e as mulheres

A sociedade nos tempos de Jesus, como apresentado anteriormente, era formada com base em uma estrutura patriarcal de inferioridade e submissão das mulheres. Jesus, o Cristo, foi diferente dos homens de sua época. As mulheres eram atraídas por Ele e o seguiam juntamente com o restante da multidão; suas atitudes em relação à classe feminina vão no sentido contrário à misoginia da época.[1]


Desta forma, no processo das relações de gênero, aprender com as características de Cristo é fundamental. Desde a sua genealogia é possível identificar características contrárias ao padrão social vigente na época. Nas genealogias antigas não havia a necessidade de registrar mulheres, contudo Mateus 1.1,3,5,6,16, inclui cinco nomes de mulheres, todos relacionados com nomes estrangeiros. As quatro mulheres mencionadas na genealogia de Jesus, em Mateus, são, de certa, forma um reflexo de Maria, mostrando que estas também tinham importância.[2]


Os nomes femininos presentes na genealogia de Mateus são uma prova do reconhecimento Divino para com as mulheres, que venceram suas lutas e, dessa forma, mesmo dentro de uma sociedade patriarcal, tiveram seus nomes marcados na história. Tamar, Rabe, Rute, Bate-Seba e Maria tiveram a honra de serem ancestrais citadas na genealogia de Cristo.[3] Foram honradas em um período em que mulheres eram consideradas seres de segunda categoria.[4]


Cristo apresentou-se ao mundo de forma diferente da esperada, do conceito de masculinidade da época. A imagem mais condizente seria a de um messias guerreiro ao estilo do rei Davi, esta era a forma que se imaginava ser homem, com características dominantes, adultocêntricas e dessa forma se relacionar com o feminino. Jesus apresentou um novo modelo de masculino, concepção que passa pela cruz, e emerge com a mansidão, característica contrária ao ser masculino da época. No servir e na humildade transbordantes, Cristo apequenava-se e colocava-se ao lado dos que sofriam, combatendo os símbolos de poder e de masculinidade da época.[5]


É importante destacar que Cristo não combateu somente os símbolos de poder e a opressão contra a mulher: Ele agiu na direção dos marginalizados de sua época, mostrando que havia esperança para eles, indo contra a sociedade vigente da época. Sendo possível observar, em Lucas 6.17-26, que Jesus diz que os marginalizados desfrutariam de um estado completamente diferente no futuro, pois as bem-aventuranças estavam guardadas para eles. Fica nítido o amor de Cristo pelos desfavorecidos, pobres, doentes, assim como as mulheres.[6]


Jesus, repleto de ternura e amabilidade nunca vistas anteriormente, gerava nas mulheres o sentimento de valorização e autoestima, ao serem vistas como algo mais do que um útero gerador. De maneira que grande parte das pessoas que viviam em torno de Jesus eram pobres e mulheres. Jesus, durante seu ministério, quebrou o jugo social que pesava sobre as pessoas consideradas inferiores socialmente.[7]


A prática do discipulado de iguais, no ministério de Cristo, ia contra a estrutura dominante em Israel. Jesus faz a interpretação correta da Torá, dando oportunidade a todos de viverem experiências de amor com Deus.[8] Neste movimento de renovação intrajudaico, as mulheres passaram a ser consideradas iguais, discípulas, libertas, amadas por Deus, largando suas antigas formas de vida para seguir a Jesus Cristo.[9]


No evangelho de Marcos é possível identificar a presença feminina desde o primeiro até o último capítulo. As passagens em que as mulheres são vistas revelam a presença de Jesus com elas e delas com Jesus. Estas o seguiam desde a Galileia até a Cruz. Jesus as acolheu, sem discriminação, em um movimento de renovação cultural. Cristo fez o que nenhum rabino havia feito: ele estabeleceu um relacionamento particular com as mulheres. Falou com elas, prestou-lhes ajuda em suas necessidades, curou suas enfermidades, deixou-se seguir por elas, de maneira revolucionária para seu tempo.[10]


Jesus se mostrava amigo e complacente com as mulheres. Quando uma mulher adúltera é colocada em frente a Jesus, Ele reage de maneira que os acusadores passam a olhar para seus próprios pecados. E quanto à mulher adúltera, ele libera e perdoa, como relatado em João 8.11.[11] Candiotto apresenta uma lista dessas mulheres, citadas na Bíblia, conhecidas por fazerem parte da história de Cristo;


"Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, Marta e Maria. Diz o texto bíblico que elas o “seguiam” o “serviam”. Tais verbos são tecnicamente utilizados para designar o discipulado. Ao contrário do Antigo Testamento a partir do qual as verdades divinas eram reveladas aos profetas homens, Jesus comunica sua filiação divina, sua messianidade e Ressurreição para as mulheres e por intermédio delas. À samaritana, desprezada por ser mulher, estrangeira, e impura, de má conduta, Jesus se revela como Messias. (Jo 4, 29b-30.39). A Madalena, ele designa a missão de anunciar aos discípulos sua ressureição. Lembremos aqui que na Lei judaica, a mulher não é aceita como testemunha. Sem se constranger com o contexto sociocultural, Jesus valorizou o testemunho de mulheres, mesmo nesse momento decisivo da história da salvação."[12]


Na vida de Cristo houve momentos em que Ele foi hospedado por mulheres, porém em nenhum momento se sentiu incomodado com a presença delas quando estas ficavam aos seus pés, ouvindo seus ensinamentos.[13] Jesus transpõe os limites impostos pela estrutura social da época, favorecendo relações geradoras de vida.[14]


As mulheres que conviviam com Cristo não se sentiam excluídas socialmente. Elas faziam parte de toda a sua história, desde curas até a sua ressurreição.[15] A forma como Jesus tratou as mulheres e os excluídos, mostra que Ele cumpriu com excelência o grande amor do Pai, não fazendo acepção de pessoas, amando sem distinção. Jesus manifestou de forma clara que não consentia com a injustiça dos homens em relação às mulheres na sociedade da época.[16] Sendo possível afirmar que as:


"Mulheres vivenciaram gestos, palavras e ações libertadoras com Jesus. Podemos falar da construção de uma teologia relacional, visto que experiências de cura, perdão, de ensino e aprendizagem, de restauração da dignidade de viver colocavam Jesus em relação com mulheres e outras pessoas, e igualmente colocavam mulheres e outras pessoas em relação a Jesus. [...] Essa relação se estabelecia por práxis libertadora de Jesus e na práxis libertadora das mulheres."[17]


Cristo estabeleceu um novo padrão de se relacionar com as mulheres; por sua vez, estas também estabeleceram outra relação com Jesus. Sendo assim, um relacionamento baseado na reciprocidade, no discipulado de iguais. A forma como Jesus agiu com as mulheres ao longo de sua vida é uma luz que se acendia na construção de relacionamentos igualitários, ousadia para sua época, mas atitudes do Cristo que tem coragem para romper com o estabelecido, propondo novas relações e novos padrões, prática constante tida por Ele.[18]



Referências:

[1] PINTO, Sionite Sandra Portugal Frizzas. A condição das mulheres nos tempos de Jesus e sua inclusão como participante do reino sob a perspectiva Joanina. Relegens Thréskeia, Paraná, v. 02, n. 02, 2013, p. 5. [2] NATEL, Clélia Peretti Angela. As mulheres da genealogia de Jesus no Evangelho de Mateus. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 54, n. 2, p. 333-349, jul/dez 2014, p. 336. [3] NATEL, 2014, p. 346-347. [4] KOCHMANN, 2005, p. 37. [5] SOUZA, 2014, p. 140. [6] CARVALHO, Elen Diana. A “missão integral” da igreja como proposta de alcance dos marginalizados nos grandes centros urbanos. Davar Polissêmica, Minas Gerais, v. 5, n. 1, 2013, p. 10. [7] SILVA, Creuza Elena da. A relação interativa entre Jesus e as mulheres a partir de Mc 14.3-9. São Leopoldo, EST – Dissertação Mestrado, 2012, p. 53-54. [8] SILVA, 2012, p. 58. [9] REIMER, Ivoni Richter. Apostolado, diaconia e missão de mulheres nas origens do cristianismo: rever tradições para empoderar e promover cidadania plena. Revista Pós-Escrito, Rio de Janeiro, n.4, p. 110-126, ago/dez 2011, p. 111. [10] CAPOSSA, 2005, p. 32-36. [11] PINTO, 2013, p. 5. [12] CANDIOTTO, 2008, p. 67. [13] PINTO, 2013, p. 5.[14] CAPOSSA, 2005, p. 111. [15] SÖLLE, 1991, p. 80. [16] PINTO, 2013, p. 9 [17] REIMER, I. R., Maria, Jesus, e Paulo com as mulheres: textos, interpretações e história. São Paulo: Paulus, 2013, p. 73. [18] MACHADO, Alzira Gomes. Basta de violência contra as mulheres. São Leopoldo: Cebi, 2016, p. 27.

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