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A voz feminina - Mulheres no mundo greco-romano

Para compreender a figura feminina nas comunidades cristãs é importante destacar que, em período anterior, ou seja, no início da história do povo de Israel e no período da monarquia. Ou seja, em todas as sociedades da época, as posições de poder eram predominantemente masculinas, pertencendo aos homens sábios que regiam a liderança como juízes e administradores, líderes militares e religiosos. Após a instituição da monarquia a figura, masculina do rei assumia a posição no topo da hierarquia social, sendo este o poder máximo na sociedade da época.[1]


Da mesma forma no Israel do tempo bíblico os homens eram nitidamente mais importantes do que as mulheres, o chefe da família, que costumava ser o pai ou o homem mais velho governava todo o grupo familiar, tomando as decisões que julgava mais corretas. As mulheres, dentro desta estrutura patriarcal eram pouco ouvidas, isso quando tinham a oportunidade de opinar.[2]


Somente é possível compreender a importância da mulher e o seu papel na comunidade cristã primitiva quando o contexto social e cultural da época é levado em consideração. De maneira que a comunidade cristã não estava isolada do contexto social da época.[3]


Segundo Teixeira, é importante destacar que as palavras de Jesus perpassam pelos escritos redigidos por homens, influenciados pela cultura, religião, costumes. Valendo afirmar dentro da perspectiva do tema “mulher” que este não fica isento da influência e interpretação dos autores neotestaméntarios e da comunidade cristã primitiva. Uma vez que se encontravam em um momento histórico legalmente e culturalmente discriminador.[4] Sendo assim é considerado de suma importância conhecer a realidade em que as mulheres estavam inseridas nas primeiras comunidades cristãs, só assim será possível perceber a força que essas mulheres tiveram, não se acovardando diante da opinião depreciativa da época, provando que seu gênero não as impediria de servir a Cristo.[5]


No mundo greco-romano, onde o cristianismo nasceu, a sociedade estratificada e patriarcal.[6] Desta forma, a definição da mulher em Roma era sempre com base em sua inferioridade social e familiar: elas não tinham direito a sua própria identidade, só passaram a ser contadas nos recenseamentos no século III.[7]


Uma das demonstrações de inferioridade da mulher na sociedade é a forma como elas recebiam seus nomes. Os homens recebiam um nome pessoal, acompanhado do nome da família e de um sobrenome. As mulheres, por sua vez, recebiam o nome da família. Os nomes Cláudia, Júlia, Cornélia, são todos derivados de sobrenomes com terminações masculinas. Todas as irmãs tinham o mesmo nome, acompanhado de epítetos como: “a mais nova”; “a primeira”; “a segunda”.[8]


Mesmo tendo um espaço limitado na sociedade, as mulheres participavam da vida econômica e exerciam profissões. Isso não significa que a mulher possuía o mesmo nível de igualdade e direito que os homens. Comby, mostra a desigualdade social da mulher em relação ao homem através de como que elas deveriam se comportar durante as refeições:

Por exemplo, o costume da época para as refeições era de reclinar-se à mesa, mas para as mulheres e os fracos isto não era permitido. Estes deveriam permanecer sentados, enquanto os escravos serviam os pratos. O fato de a mulher permanecer sentada indica que ela não fazia parte da refeição servida.[9]


As mulheres romanas estavam sempre submetidas a algum homem, ao pai, a algum parente, ao marido, até ao seu próprio filho, em caso de viuvez.[10] O casamento representava uma mudança na condição feminina: tornava-se dona de casa, incorporava-se ao seu novo lar. Ela assumia o posto de mãe, de maneira que entrava no casamento para gerar filhos.[11] O romano Hulo Gélio retratou a função da mulher e como elas eram vistas como um fardo para o homem, quando proferiu a seguinte afirmação:

“Se nós pudéssemos perpetuar sem esposar, ó romanos, não haveria um só, entre nós, que quisesse esse encargo. Mas já que a natureza, quis, por um lado, que fosse absolutamente impossível ser-se feliz com as mulheres, e, por outro, que elas fossem necessárias à propagação da espécie humana, é preciso que sacrifiquemos à conservação do Estado a felicidade de nossa vida.”[12]


Além da propagação da espécie, o casamento era visto como uma forma de transmitir prosperidade e riqueza. Em alguns casamentos, a moça e todos os seus bens passavam a ser propriedade do marido, pois acreditava-se que as mulheres precisavam de sua experiência para cuidar delas e de seus interesses.[13]


No âmbito religioso, as mulheres romanas eram muito influenciadas pela superstição, como também eram excluídas dos cultos. Viviam amedrontadas por presságios religiosos castigadas com punições, exauridas por práticas penitenciais para obter favores dos deuses. Quando ouviram as boas-novas do Evangelho, que diziam que elas poderiam ter um Deus, uma igualdade, converteram-se em grande número. Para Almeida, as mulheres obtiveram um breve tempo de igualdade, antes de serem excluídas dos cargos da igreja e de não terem por única “escolha” uma vida fora do mundo.[14]


Apesar de algumas distinções de uma sociedade para a outra, o patriarcalismo era a característica predominante das sociedades em que ocorreu o início do Cristianismo. As diferenças nos papéis sociais motivados pelas questões de gênero geraram uma profunda desigualdade social, porque os homens determinavam os papéis sociais, os espaços. O homem ocupava o espaço público, enquanto a mulher ficava no espaço privado, esse que também era dominado pelo homem, se assim ele desejasse.[15]


Para Severino,

"Participar do movimento de Jesus exigia muita determinação e coragem, pois a pax romana[16] combatia a fé cristã com inquisições, torturas e execuções. A perseguição era maior sobre os líderes. A lei era muito rígida em relação à mulher, submetidas apenas aos deveres. Com o anúncio da Boa Nova as mulheres visualizaram a possibilidade de se libertarem das opressões, saírem do âmbito da casa, da submissão e assumirem a uma nova condição. Muitos grupos do movimento de Jesus se reuniam nas casas. As mulheres tinham um destaque maior dentro da casa, logo o grupo de mulheres participantes do movimento de Jesus que detinham uma liberdade relativa, em relação ao contexto cultural da época, acolhia a comunidade cristã em suas casas."[17]


A participação da mulher não se obteve tão somente ao espaço de casa, elas impressionaram profundamente a sociedade antiga, agindo mais do que ensinando. Mulheres de posse contribuíram para a expansão do Cristianismo, outras morreram sem negar a fé, outras se retiraram ao deserto em busca de maior comunhão com Deus. Muitas cristãs primitivas entregaram seus corpos ao martírio e consideravam que ser cristã era sua essência.[18] Passando por perseguições, prisão e morte, pelas mesmas situações que os homens da época passaram.[19]


Almeida fala que o Cristianismo, no período entre 80-325 d.C, abandonou a prática de tratamento igualitário de Jesus e o transformou no patriarcalismo do Velho Testamento. As reações da ortodoxia e do gnosticismo prejudicaram o papel das mulheres nas igrejas. Igualmente a deficiente perspectiva sobre a sexualidade humana, presente em algumas formas de ascetismo, contribuíram para diminuir a importância do ministério das mulheres.[20]


Por Danielli Cadore



Referências:

[1] FERNANDES, Larissa. Mulheres no cristianismo primitivo. JOINTH, Paraná, v. 3, n. 1, p.26-35, 2014, p. 28. [2] CAPOSSSA, Romão Felisberto Joaquim. A mulher na comunidade do Discipulo Amado e sua dinâmica evangelizadora, a partir de João 4,1-43, tendo em conta os aspectos sociais, políticos econômicos e religiosos. São Leopoldo: EST – Dissertação de Mestrado, 2006. p. 34. [3] TEIXEIRA, José Luiz Sauer. A atuação das mulheres nas primeiras comunidades cristãs. Revista de cultura teológica, São Paulo, v. 18, n. 72, out/dez 2010, p.56-57. [4] TEIXEIRA, 2010, p. 58. [5] ALMEIDA, Rute Salviano. Vozes femininas no início do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2017, p. 331. [6] SOUSA, 2012, p. 32. [7] ALMEIDA, 2017, p. 109. [8] MOCELLIN, Renato. As mulheres na Antiguidade. São Paulo: Editora do Brasil, 2000, p. 38. [9] COMBY, J. J; LEMONON, P. Vida e religiões no império romano no tempo das primeiras comunidades cristãs. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 71. [10] RODRIGUES, Natália Vasconcelos. As mulheres deixadas para trás na Eneida de Virgílio. Imprensa da Universidade de Coimbra, São Paulo, 2015, p. 114. [11] ALMEIDA, 2017, p. 114. [12] Apud, MOCELLIN, 2000, p.37. [13] ALMEIDA, 2017, p. 116. [14] ALMEIDA, 2017, p. 141-142. [15] SOUSA, 2012, p. 35. [16] A PAX ROMANA: Significa, em latim, “a paz de Roma”. Ocorreu no período histórico, no qual o Império Romano esteve em hegemonia, um elemento fundamental importância para a manutenção do seu poder. Sendo essa expressão utilizada para designar o período compreendido entre o reinado de Augusto César, no ano de 29 a. C. até o ano de 180 com a morte do imperador Marco Aurélio. In.: SERIQUE, Israel. Pax Romana e a Eirene de Cristo. Fragmentos de cultura, Goiânia, v. 21, n. 1/3, 2011, p. 120. [17] SEVERINO, Marciana Barros. A mulher e a casa nos inícios do cristianismo. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 21, n. 10/12, out/dez 2011, p. 669. [18] ALMEIDA, 2017, p. 145. [19] CAPOSSA, 2006, p. 34. [20] Apud, ALMEIDA, 2017, p.145.

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